segunda-feira, outubro 31

O Zé Povinho, o terramoto de 1755, a morte da minha mãe e Miguel Esteves Cardoso

Nas duas últimas semanas foram várias as publicações que falaram do aniversário (250 anos) do terramoto de 1755. No geral, todos explicavam as enormes alterações que o traçado da capital sofreu depois da catástrofe, os feitos do Marquês de Pombal e dos arquitectos envolvidos no projecto da “Lisboa Moderna” e a criação das leis que obrigavam à construção anti-sismica, na qual Portugal foi pioneiro. Até aqui tudo bem. Para mim a grande questão surgiu quando li na “Pública” deste Domingo o texto de um historiador que nos diz que “a destruição da cidade ter-se-ia processado aos poucos, entre fogos e abandono se não tivesse havido terramoto”. Ora, na minha perspectiva isto é quase como se alguém dissesse “ainda bem que houve terramoto, porque assim aquela porcaria caiu toda de uma vez!”. Este género de frase é típica do espírito “Zé Povinho” que, ao falar de alguém que perdeu as duas pernas num acidente, diz “teve sorte, coitado! Ao menos ainda tem os braços.”

Neste caso a coisa é mais flagrante, porque eu tentei compreender a perspectiva do senhor mas, como leiga na matéria, não consigo parar de pensar das cerca de 100 mil pessoas que morreram no terramoto e nas outras dezenas (ou centenas) que foram executadas pelo Marquês, simplesmente por terem entrado em pânico e julgarem que Deus estava irado (quem não acharia o mesmo em pleno século XVIII num país profundamente católico?) ou por tentarem reconstruir as suas casas fora do traçado planeado para a cidade.
Pensei muito nisto, mas um terramoto gigante seguido de um maremoto gigante não me parece uma coisa boa, nem agora, nem daqui a 200 anos. Se não for pela perda de vidas (porque segundo a lógica zépovinhesa “as pessoas iriam todas morrer mais tarde ou mais cedo”) pela perda de obras de arte essenciais à história de Portugal e do mundo.

O mal é que a lógica zépovinhesa não fica por aqui, porque o Zé Povinho tem “sorte” em todas as ocasiões. Para mim o pior “mandamento” desta religião é aquele onde o Zé Povinho diz “ainda bem que morreu, porque assim não fica cá a sofrer”. Digo isto com conhecimento de causa: ouvi esta frase 3000 vezes quando a minha mãe morreu e em nenhuma altura ela soou a algo com sentido ou fez com que a lembrança das palavras “Ela morreu” ditas pela minha tia no outro lado da linha fosse menos dolorosa. Também não impediu que todos os dias ao acordar eu finja que a minha mãe foi de férias e se esqueceu de telefonar, só para conseguir passar bem o dia. Melhor do que eu para explicar a estupidez absoluta e inegável desta afirmação só Miguel Esteves Cardoso. Assim me despeço.
“ A morte é um nojo. Morrer é uma autêntica vergonha. Que sentido é que faz? A vida pode não ser bonita, mas a morte é um horror. Qual paz qual sopa de alho porro! Qual “não tenhas medo, estás nas mãos de Deus!” Diante da morte, o medo é a única reacção sensata que se pode ter. A morte é um atraso de vida. Porque é que ela se há-de aceitar? Fujam. Enquanto ainda estão vivos. Mais do que conduzir bêbado na Marginal, mais do que a SIDA, mas do que nascer etíope, a principal causa de mortandade entre o homem continua a ser a morte. A única maneira de morrer é aos pontapés. A protestar. De preferência, apanhado de surpresa. Com indignação. A morte não se recebe. Resiste-se até morrer.”

PS – Mais vos digo, eu não sou alfacinha, mas a minha mãe era. De gema. E também não me parece que ela tivesse achado o terramoto uma coisa boa.

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