quinta-feira, dezembro 8

Pessoa e Espanca

Nas últimas duas semanas celebraram-se (não sei se esta será a melhor palavra) os aniversários das mortes de dois grandes poetas portugueses: Fernando Pessoa (70 anos) e Florbela Espanca (75 anos). No caso de Pessoa, a passagem de 70 anos sobre a seu desaparecimento traz-nos algo muito bom: os direitos da sua publicação deixam de ser exclusivos das Edições Assírio e Alvim. Deixamos de estar sujeitos aos caprichos (e preços) desta editora.

No sentido de relembrar Pessoa e Espanca deixo aqui o primeiro poema que me foi lido (pela minha mãe) da autoria de cada um deles. O primeiro de muitos "momentos" culturais aqui no blog. Apreciem.


O Menino da sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece")
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

Fernando Pessoa


Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

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