quarta-feira, maio 9

Nada Se Perde, Tudo Se Transforma


A caminho da terra dele para passar o Dia da Mãe com uma mãe que não é minha, assaltaram-me a memória os cinco anos de viagens de comboio entre Castelo Branco e Vila Franca de Xira. Quase quatro horas no Regional. No Inverno enroscada nos bancos de napa remendados à mãos a ver chover no Tejo, no Verão de cabeça à janela e cabelo cheio de vento e fuligem.

Havia velhos e menos velhos com os copos, senhoras entroncadas com merendas enroladas em rodilhas aos quadrados, bébés a chorar, magalas a dormir encostados aos sacos cheios de roupa suja e calças e meias por remendar, um senhor que ficava em Santarém e trazia sempre couves ou batatas e lembro-me bem de uma senhora que guardava os filhos numa daquelas medalhinhas de trazer ao pescoço. Só a encontrei uma vez, mas ela conseguiu a proeza de me resumir a sua vida em apenas uma viagem. O seu maior desgosto era que o seu (falecido) marido nunca a tivesse deixado trabalhar.

No Dia da Mãe imaginei os filhos dela, pequeninos, guardados na medalhinha como se nunca tivessem crescido, perdidos, sempre felizes, a jogar às escondidas no retrato a preto-e-branco tirado na casa de Angola.

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Na Velvet os dias tem passado depressa. Dividir a secretária com outra pessoa faz lembrar os tempos da escola, quando havia sempre alguém atento que tirava apontamentos de tudo e que impedia a minha dispersão. Bem-vinda, Cátia!


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Nothing Is Lost, Everything Is Transformed

On the way to his city to spend Mother’s Day with a mother who’s not mine, the memory of the five years of train trips between Castelo Branco and Vila Franca de Xira assaulted me. The Regional took almost four hours. In the winter I was snuggled in the mended seats seeing the rain falling on the Tejo, in the summer I had the head out the window and the hair full of wind and soot.

They were old, and not so old, drunk people, big country ladies with meals stored in squared tablecloths, babies crying, young soldiers asleep leaned on bags full of dirty clothes and pants and stockings for patching, a gentleman who always left the train at Santarém and always brought cabbages or potatoes with him, and I remember well one lady who kept her children in one of those small medallions around the neck. I only found her once, but she made the feat of summarizing all her life in only one trip. Her biggest sadness was that her (deceased) husband had never allowed her to work.

On Mother’s Day I imagined her children, tiny, kept in the medallion as if they never had grown, lost, always happy, playing secretly in the black and white picture taken back home in Angola.

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At Velvet the days are fast. To split the desk with another person makes me come back to school days, when there was always someone concentrated who took notes of everything and hindered my dispersion. Welcome, Cátia!

4 comentários:

wednesday disse...

Sendo eu de Portalegre, ia mais vezes de expresso. Para a minha terrinha, o comboio era regional. Delicioso mas difícil de acabar. Agora reparto as minhas idas e vindas pela A23 ou pela A6... Depende de onde me der o vento!

Thunderlady disse...

Gostei muito de ler sobre as tuas memórias.

Aliás, gosto de ler sempre que escreves algo mais "longo". :)

Salamandra Pintarolas disse...

Só agora li! hi hi hi!
Obrigada pelas boas vindas e ainda mais pela partilha da secretária! Bem entendo como custam essas coisas, mas as boas notícias é que há rumores de que é apenas uma situação temporária!
Beijos e... até amanhã!

Sara disse...

Obrigada pelos comentários. É bom ver que o blog é realmente "lido", na verdadeira acepção da palavra. :)