terça-feira, julho 24

Por entre a roupa lavada




Por entre toalhas muito usadas com padrões anos setenta e as camisas aos quadrados do tio Manel, à esquerda, a Serra, a azul acinzentado; ao meio - lá ao fundo - a Sé. À direita o resto da cidade, muitos telhados e a Torre do Relógio que agora toca e avisa todos para chegarem a horas. Mesmo em frente está o pátio da Sede dos Escoteiros, ouve-se rir e falar muito alto.
Nas ruas do Bairro do Castelo já só passeiam velhotes, alguns cães e muitos gatos - uns vadios outros com dono. Por aqui anda-se devagar porque as ruas são a subir e a idade já não ajuda e porque temos que dizer "boa tarde" à Menina Cecília, que apesar se septuagenária continua rapariga por não ter encontrado homem. Entretem-se em casa a confeccionar delícias tais que adoçam a boca de toda a vizinhança só pelo cheiro.
Aqui e além - mas principalmente à entrada do Bairro pelo arco do Bispo - vivem ciganos aí realojados em casas recuperadas pela Câmara, de quando em vez aparecem à porta a vender camisolas e meias: "Ó vizinha, a sua nora não quererá qualquer coisinha? Era uma ajuda..."
Por volta do meio-dia cheira a almoço na rua e ao Domingo todas as avós mostram os netos às vizinhas: "Ele é arisco, mas se fosse panhonhas não tinha graça nenhuma!" Assim se perdoam as maldades às crianças e se estraga a equação às mães. E há-de ser sempre assim no Bairro do Castelo.

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À saída, por ver tudo amarelo, esqueço-me sempre onde estou e quase tenho pena de regressar a casa.

2 comentários:

Salamandra Pintarolas disse...

Gostei muito deste post!
(e não é que no meio de um campo de joio, resiste sempre um ou outro pé de trigo?!)

Anónimo disse...

gosto sempre, muito, do que escreve.