terça-feira, outubro 23

Dizem que os sonhos são para quando estamos a dormir

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A vista era uma esquina com um semáforo e muita publicidade. Também havia lá daqueles contentores azuis que dizem "o povo português ajuda Angola" de onde espreitavam as pernas de um homem que tentava "pescar" roupa de Inverno. Passou outro homem - não era menos que isso, nem faço ideia do que seria mais - que se demorou perto de mim mas que acabou por seguir o seu caminho.

Carros cruzavam as passadeiras a alta velocidade; recheados de miúdos com birras e mães com as cabeças cheias de contas, receitas rápidas para o jantar do dia - já é tão tarde! - e vontade de despejar os putos no restaurante do palhacinho só para ver se eles se calam. (Viravam para lá no fim da avenida.)

A pé eram só solitários e ocasionalmente um par de namorados adolescentes que não dava sinais de enamoramento de género algum.

Nós prédios havia luz janela-sim, janela-não e numa ou outra notava-se apenas o lusco-fusco de uma televisão ligada (ou talvez de uma vela que alegrava a mesa de jantar posta com a melhor loiça e a toalha herdada da avó).


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3 comentários:

Thunderlady disse...

Tanta melancolia...

Bjoka

wednesday disse...

Mas eu prefiro os sonhos de quando estou acordada: consigo lembrar-me deles e têm pormenores mais simpáticos.

Salamandra Pintarolas disse...

Fez-me lembrar os tempos em que vivi na Marquês de Pombal...
Aqueles momentos ao final do dia passados à janela, a olhar em redor e para coisa nenhuma, enquanto as luzinhas dos prédios vizinhos lembravam o, já na altura, velhinho jogo Tetris.