segunda-feira, fevereiro 18

Nadas

{Foto: Dextr}

O homem já é velho, ou está na terceira idade, como se diz agora. Não tem um ar afável, nem agressivo, parece pontual. Todos as manhãs vai à loja de conveniência da bomba da gasolina comprar o jornal. Na quinta-feira levava a braguilha aberta. Um esquecimento fruto da pressa ou da idade. Acredito que fosse só isso. Um rapaz novo também reparou e riu-se, uma senhora num Mercedes abanou a cabeça indignada. Já dentro da loja, não sei se mais alguém reparou, mas estou certa que ninguém disse nada, porque à saída o fecho ainda vinha por correr. Assombrada pelas coisas que me contavam na infância, também eu não disse nada. Arrependi-me. É incrível como algo tão simples como um fecho rouba a dignidade a alguém.

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Há catorze anos a minha irmã fez uma asneira qualquer. O castigo imposto foi levar-me com ela para todo o lado. Saí à noite com ela pela primeira vez. Enquanto puxava de um cigarro disse-me com um ar muito solene: "Está na altura de aprenderes que há certas coisas que não se contam ao pai e à mãe." Acenei que sim. E fomos de carro para não sei onde com a Lena e um rapaz mais velho que se chamava Hugo. Eu tinha treze anos, ela dezasseis. Acho que foi por isso que nunca fomos amigas, só irmãs.

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No café uma senhora escrevia com letras pequenas e bem desenhadas numa pequena agenda. A sua expressão era tranquila e a pose - muito direita sentada na cadeira - era rígida, ensinamento de outra época. Parecia prosa. Era prosa azul. Letras azuis e pequenas muito bem alinhadas nas linhas apertadas. Fartei-me de espreitar, mas não consegui ler nada. Fiquei convencida de que seriam as suas memórias, ou a história de um amor secreto ou os ingredientes para se viver feliz para sempre. A azul.

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O dia 18 foi o nono dia no hospital e a visita já era rotina, ela já não abria os olhos. Era sexta-feira. Eu tinha chegado a casa na terça de manhã. Vim a pé da estação. Quando meti a chave na porta o meu pai ouviu e abriu-a, como se não fosse nada sorri e disse-lhe "Já cá estou.". Estava mesmo convencida de que não era nada. E foi. O maior nada da minha vida. A minha tia ligou a confirmar no domingo ao fim da tarde.

3 comentários:

Salamandra Pintarolas disse...

...estou arrepiada dos pés à cabeça...

Anónimo disse...

adoro ler os seus "pensamentos" continue....são lindos.

Sara disse...

Obrigada.