quinta-feira, março 13

Crua

A ideia de realidade crua agrada-me. Gosto da palavra cru por sugerir sempre algo que não foi preparado, que está por cozinhar ou por difarçar. Na realidade crua sentimos mais as coisas, porque podemos fingir que aquela é a nossa vida sem nos sentirmos culpados. Podemos ter sexo sem música de fundo e suspirar com força e dar beijos com saliva a mais. Dizer foda-se ou merda sem arrependimentos ou inconveniências.
Gosto de silêncios confortáveis que acontecem realmente e da tranquilidade com que os seus intervenientes os aceitam.
Ultimamente têm-me dado um grande prazer almoçar sozinha, ter tempo para divagar em ideias e sonhos sem nexo, ler e beber café com um pau de canela. Fingir que sou intelectual ou turista. Perder tempo a ver as coisas de todos os dias pela primeira vez. Fingir que eu não sou eu e imaginar outras vidas possíveis para mim. Acabo sempre por regressar ao que sou, a desejar não ter feito isto ou dito aquilo, a desejar ser menos crua.


à Keffa, que escolheu ser crua

2 comentários:

Salamandra Pintarolas disse...

Gosto sobretudo da parte de ver as coisas pela primeira vez, todos os dias :D

Anónimo disse...

Dá uma olhadela aqui:
Revista CRU A

http://www.cru-a.com

;)