quarta-feira, maio 14

{Havia uma menina de casaco vermelho a correr atrás dos pombos. Um cão a dormir de barriga para cima. Duas senhoras a comer sorvete. Três bancos ao sol. O Mosteiro nas minhas costas.}

Fechei os olhos. Hoje não levei nem livros nem música. A Keffa atrasou-se.

Não quero admitir que sou uma desistente. Que posso vir a ser uma desistente, que é mais fácil sê-lo e que nos dias de hoje ninguém o recrimina. Agora todos abandonam as coisas difíceis. As coisas difíceis dão trabalho e tudo se quer simples e dado de presente. Recebido por mérito. Por ser boa pessoa.
Durante um milésimo de segundo senti-me sozinha e fria. O tempo demorou a passar, fiquei presa, tensa, de perna casualmente traçada e mãos nos bolsos. Queria começar a andar e nunca mais parar, seguir a pé até onde o meu corpo resistisse, receber comida e abrigo de estranhos, desistir, começar de novo sem escolhas. Começar de novo porque calhou.

Abri os olhos e fugi. A cobardia impediu-me de desistir, o medo de não ter medo travou-me. Imaginei um ombro onde encostei a cabeça. Um velho disse: A vida é isto. O ciclo continua.

1 comentário:

Salamandra Pintarolas disse...

Arrepia. Já me vi várias vezes nesse mesmo banco. "A vida é isto. O ciclo continua."