segunda-feira, junho 30

dos {des} conhecidos

De barba feita, deixa à vista o seu rosto branco e as fragilidades de menino preso em corpo de homem. Nas mulheres desperta um sentimento maternal de um tipo desconhecido até então.

(Não conheço nenhum homem que não pareça ser apenas um menino crescido. Pelo contrário, as mulheres têm gosto em mostrar que nasceram crescidas. Pouco guardam dos gestos e modos da infância. Numa mulher a meninice parece um crime, um atentado à criança que se foi.)

Fugir a Deus

"Desporto ao Domingo de manhã? Então ou é ateu, ou agnóstico, ou uma ovelha tresmalhada. Um pecador de qualquer género será com certeza."

Calculo que seja esta a lógica das duas Testemunhas de Jeová que distribuem folhetos ao Domingo de manhã nos percursos pedonais aqui em Leiria. E faz sentido. Eu própria passei por duas igrejas na minha caminhada matinal, e optei pela boa forma física abdicando da ginástica espiritual.
Tornei-me por isso um alvo para as (excessivamente) simpáticas senhoras, que não tiveram pudor nenhum em pedir-me para "encostar às boxes" para me falarem dos benefícios da leitura da Bíblia.

A partir de agora, ao Domingo ou corro ou levo a bicicleta. Vou fazer uso do meu direito à liberdade religiosa nem que seja à força.

domingo, junho 29

Lições de felicidade

de Odette Toulemonde. Tivemos o privilégio de as receber no sábado à noite. Memorável.

sexta-feira, junho 27

Mais nervoso miudinho

Ceder, porque é o melhor para todos. A minha mãe sempre me disse que saber ceder era uma qualidade, mas ando farta de abdicar dos meus quereres pelo bem maior. É assim que, logo pela manhã, me estragam um dia inteirinho e enchem a garganta de palavras feias, tudo pelo bem maior. O bem de todos menos o meu. Serve-me de muito.

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{Hoje é a avalanche de Sufjan Stevens que acalma a fera}


quinta-feira, junho 26

Nervoso miudinho

As meias dele aos pés da cama.
Migalhas no teclado.
Indecisões.
Não ter hora de almoço.

Tão miudinho que me faz rosnar.

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{Música para acalmar feras} {Feist_1234}

segunda-feira, junho 23

Joaquín Sabina

a banda sonora oficial do Estúdio Nómada.

O Verão começou assim

{Uma viagem de encontro a um amigo.}
{Reggae português.}
{Cerveja com sabor a limão.}
{Muita dança.}
{Matraquilhos.}
{Sono desassossegado.}
{Calor.}
{Pés descalços.}
{Coca-cola ao pequeno-almoço.}
{Gurosan.}
{Joaquín Sabina.}
{Centro Geodésico de Portugal.}
{Olhos cheios de verde.}
{Eléctricos antigos no meio do campo.}
{Bidés e penicos no meio do campo.}
{Cacos bonitos.}
{Vacas, bois, um cavalo e um pónei.}
{Museu cheio de coisas dos outros.}
{Óculos e livros; agendas e blocos; sapatos e malas de viagem.}
{Melancolia.}
{Almoço à beira rio.}
{Pássaros.}
{Sesta de pés para o Zêzere.}
{Foto de despedida.}
{Regresso a casa adormecida no banco de trás.}








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video


sexta-feira, junho 20

Colete salva-vidas

"Karl Lagerfeld, criador de moda com trabalho em nome próprio e para a Chanel, tornou-se modelo com uma fatiota muito inestética. É um modelo de comportamento, neste caso de trânsito. O costureiro está desde terça-feira nas ruas de 110 cidades francesas numa campanha de segurança rodoviária, em prol da qual se vergou a vestir um muito pouco elegante colete fluorescente."É amarelo, é feio, não combina com nada, mas pode salvar-lhe a vida", dizem os 2827 cartazes."

In Público (Suplemento P2, 20/06/08)

Viva La Velvet, agora a sério

De manhã chegou a peça que faz da Velvet uma empresa séria: o logo em vinil de recorte para colocar na porta.
A colocação do grafismo nas portas de vidro foi feita pelo Moisés (quiçá um sinal de intervenção divina?) e pela Keffa, sob forte observação dos restantes velvetianos. Mais um momento Kodak na história deste imensurável planeta.

{Velvetianos em debandada para assistir à colocação do logo}

{"...mais para a esquerda, mais para a direita..."}

{"para mais tarde recordar, la, la, la..."}

{"isso tem bolhas e o vidro está sujo"}

{"yupiiiiii!"}

{Moisés: um enviado dos céus - mais ou menos...}

{Velvetianas: sempre em cima do acontecimento}

{a malta toda, já com um look muito mais pro.
Falta o boss, mas ele sempre foi rambito!}

terça-feira, junho 17

dos {des}conhecidos

Havia um rapaz quase homem, praticamente homem, que tinha um sorriso espantoso que só mostrava quando falava ao telefone. "Um desperdício - pensei." Até escrevi para não o esquecer, para aquele sorriso servir para algo mais do que passar em branco na memória.

Domingo-feira

{Este foi o segundo domingo de 48 horas que tenho desde que trabalho na Velvet. A semana começa logo torcida, à terça-feira.}

Hoje foi um dia ao contrário: de manhã estava cansada e com a roupa colada ao corpo, à tarde intercalei a sesta com pequenas tarefas domésticas e com a leitura do jornal de ontem; finalmente abracei o sono, acabando por acordar às nove da noite. Como jantar fiz a refeição que costuma ser o pequeno-almoço - cereais integrais com leite - de seguida tomei banho e preparei-me não para trabalhar mas para dormir. Para o dia parecer mais "normal" termino-o como muito outros: a actualizar o blog.

Até amanhã.


domingo, junho 15

{Hoje, ser português é estender a bandeira desbotada lado a lado com um par de cuecas às flores e outro de meias do Noddy - não me disseram, eu vi.}

sexta-feira, junho 13

Pessoa {120 anos}

Gosto do ceu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba
E que agora e antes d'isso ha absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um principio e tem um fim,
E que antes e depois d'isso não havia tempo.
Porque ha de ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.

Caeiro

[Poema inédito, sem data, transcrito por Jerónimo Pizarro.]

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Encartado em formato de postal, no Público, fez as delícias da minha tarde.

{insubstituíveis}

{Robert Doisneau _ L'Accordeoniste, Rue Mouffetard _ Paris, 1951}

Arrancam-nos coisas sem darmos por isso. Levam-nos aos bocados, iludem-nos a viver a vida pequena. A vida da preocupação por não haver papel higiénico dupla-folha e a água mineral estar de resto. Roubam-nos sons, sentimentos, abraços e beijos e nós de sorriso nos lábios, adormecidos, convencidos de que há coisas mais importantes; a acreditar cegamente que só as coisas nos fazem falta, fiéis à falsa verdade de que tudo o resto é acessório.

quarta-feira, junho 11

{Bairro do Castelo, Castelo Branco}

No rés-do-chão há obras. O Silva está a arranjar a casa ao fim-de-semana. Ouvem-se algumas marteladas e respostas monosilábicas ao vizinho da frente, que observa o progresso dos trabalhos sentado no degrau da sua porta. Por cima de tudo isso toca uma cassete de fado, muito alto, tão alto que absorve o ruído das retroescavadoras que há mais de dois meses esburacam as ruas, despindo-as dos paralelos negros. A rua ressente-se: já não há conversas de circunstância, nem passeios pelo bairro. O tio Manel não consegue ir longe, por causa das muletas.

"- Este fado é lindíssimo! Também tenho aqui uma cassete do Rancho de Idanha, eu gosto muito de música portuguesa, qu'isto não há nada como Portugal! É ou não é Silva? Ó menina, toque à campainha qu'elas estão em casa. Ande, toque, é ali à direita. Toque, que o cão já a ouviu.
- Estou à espera de uma pessoa...
- Ande toque, qu'elas estão em casa. Toque. Este é um rico fado, é sim senhor."

quinta-feira, junho 5

Famosos!

Porquê? Descubram aqui. :D

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Ontem surgiram dos confins do porta-bagagens do carro do Rui as fotos do jantar de despedida do David. Estas três são as minhas favoritas (daquelas que passaram na censura). Nesse dia, ou melhor, nessa noite, ou melhor, nessa madrugada, já não estavamos nada famosos.




quarta-feira, junho 4


{Mesmo num dia cinzento} se me deitar de barriga para cima no banco ao lado do marco dos correios é isto que vejo pelo canto do olho; se olhar para o céu, tenho uma moldura de folhas a dançar acompanhadas pelos voos picados dos pombos e nuvens que se mexem sem ninguém dar conta; se fechar os olhos vejo o que me apetecer - estou ali e não estou e nesse exacto período de tempo sou mais feliz que os outros {pelo menos até a Keffa voltar com a realidade}.


segunda-feira, junho 2

Merenda

{em contra-luz, a ouvir os pássaros 
e a comentar o modo de andar de um cão}

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Aqui ela disse: "O cão era castiço. Tinha ares de cão de caça, rabo cortado e dançarino, patas traseiras a "dar de lado". Seguia um senhor de t-shirt vermelha. Não sei se dono, não sei se eleito futuro dono. Acredito mais na 2ª.
É Primavera e os passarinhos cantam na cobertura. O Costa nunca antes os ouvira. Será dos phones? Será desatenção? Ou será porque o Costa só está connosco desde Novembro e poucos têm sido os dias primaveris...
Estavas a comer bolachas e a tirar-nos fotos. Eu bem vi que também estavas ali connosco. Mas o que gostei mais foi deste sentido de união: um traz o bolo para a janela e logo os outros dois desembrulham a sandes e acompanham o primeiro. Parece que tudo vai bem, pelo menos, tudo o que avistamos aqui da cobertura."

Lá fui eu, um bocadinho contra-vontade, constrangida por escolher sempre o mesmo. A sentir-me culpada por ter aprendido o hábito de almoçar sozinha com os meus pensamentos e ideias perdidas. A sentir-me esquisita por gostar da companhia de desconhecidos.

Ultimamente ando obcecada pela igualdade, pelo ter que gostar de igualmente de tudo e de todos. Não gosto de feijão-verde, nem de ouvir a mesma conversa todos os dias. Já a música repete-se e não faz mal. E os livros também. Não gosto de escolhas, nem que me obriguem a fazer distinções {sinto-as e faço-as, não gosto de ter que as comprovar}, mas lá fui eu, um bocadinho contra-vontade, constrangida por escolher sempre o mesmo, a sentir-me culpada por querer ser mais feliz que os outros.

O mundo perfeito

Amou-a 20 anos em silêncio, mas um dia ela pronunciou "lábios", "mijo" e "lixo" numa mesma frase. Ele não gostou. Pareceu-lhe porco, pareceu-lhe vil, injusto. Que mulher horrenda, que desperdício de sentimento. E em 20 minutos desamou-a. Que digo eu? Em 20 segundos desamou-a para sempre. Respirou fundo e retomou a vida.
Sim, o amor é cego, mas quando vê, oh, meu Deus, quando começa a ver...


Lido aqui.

domingo, junho 1

Cais 14

A ele os braços chegavam-lhe aos joelhos e a mim os sutiens davam-me comichão. Muitas vezes íamos a pé até ao Cais 14. Andavam por lá "aqueles rapazes que deram cabo da vida por causa da droga - coitadas das mães, fartam-de de sofrer - valha-nos o Doutor Sousa Martins!" e pescadores tardios. O Tejo tinha um cheiro estranho e uma cor baça, de vez em quando passava um cagaréu num barco que flutuava e pouco mais. Era ao som do rio que o Mário fumava o seu cigarro - só um. Pouco se dizia - ele era rapaz de poucas palavras e eu tinha medo de dizer alguma parolice - ele fumava o Ventil e depois voltávamos para casa. Essa foi a nossa rotina durante três anos, depois fui para o liceu e deixámos de nos falar. Nunca demos um beijo, nem sequer as mãos, mas até hoje tenho a sensação que ele foi o meu primeiro namorado.

Voltei ao Cais 14 e não o reconheci, quase me perdi. Lembrei-me do Mário, dos seus cigarros orfãos e dos nossos três anos de silêncios desconfortáveis.