domingo, junho 1

Cais 14

A ele os braços chegavam-lhe aos joelhos e a mim os sutiens davam-me comichão. Muitas vezes íamos a pé até ao Cais 14. Andavam por lá "aqueles rapazes que deram cabo da vida por causa da droga - coitadas das mães, fartam-de de sofrer - valha-nos o Doutor Sousa Martins!" e pescadores tardios. O Tejo tinha um cheiro estranho e uma cor baça, de vez em quando passava um cagaréu num barco que flutuava e pouco mais. Era ao som do rio que o Mário fumava o seu cigarro - só um. Pouco se dizia - ele era rapaz de poucas palavras e eu tinha medo de dizer alguma parolice - ele fumava o Ventil e depois voltávamos para casa. Essa foi a nossa rotina durante três anos, depois fui para o liceu e deixámos de nos falar. Nunca demos um beijo, nem sequer as mãos, mas até hoje tenho a sensação que ele foi o meu primeiro namorado.

Voltei ao Cais 14 e não o reconheci, quase me perdi. Lembrei-me do Mário, dos seus cigarros orfãos e dos nossos três anos de silêncios desconfortáveis.

2 comentários:

Salamandra Pintarolas disse...

Existem estórias e cumplicidades que não precisam de beijos para as selar.

Anónimo disse...

...mas é engraçado recordar!

Bj
Mimi