quarta-feira, junho 11

{Bairro do Castelo, Castelo Branco}

No rés-do-chão há obras. O Silva está a arranjar a casa ao fim-de-semana. Ouvem-se algumas marteladas e respostas monosilábicas ao vizinho da frente, que observa o progresso dos trabalhos sentado no degrau da sua porta. Por cima de tudo isso toca uma cassete de fado, muito alto, tão alto que absorve o ruído das retroescavadoras que há mais de dois meses esburacam as ruas, despindo-as dos paralelos negros. A rua ressente-se: já não há conversas de circunstância, nem passeios pelo bairro. O tio Manel não consegue ir longe, por causa das muletas.

"- Este fado é lindíssimo! Também tenho aqui uma cassete do Rancho de Idanha, eu gosto muito de música portuguesa, qu'isto não há nada como Portugal! É ou não é Silva? Ó menina, toque à campainha qu'elas estão em casa. Ande, toque, é ali à direita. Toque, que o cão já a ouviu.
- Estou à espera de uma pessoa...
- Ande toque, qu'elas estão em casa. Toque. Este é um rico fado, é sim senhor."

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