terça-feira, setembro 30

Círculos

Porque os dias são círculos interligados, sobrepostos, empilhados, são precisos só mais cinco minutos, só mais um telefonema, só mais uma coisa em que pensar. E o tempo que não chega, o cérebro que não chega, o sono que não chega. Não se pode deixar nada para trás, vão-se acrescentando coisas à lista, vai-se escrevendo nas entrelinhas, vão-se anexando erratas aos dias que correm menos bem, lembretes dos desvios que não queremos voltar a fazer. Mas há sempre alguma coisa que fica para trás, deixada ao sabor do vento: as janelas com dedadas de gente e patas de gato, o sobretudo de Inverno que ainda não foi limpo a seco, o pai à espera do ouro lado do telefone. Porque os dias são círculos interligados, sobrepostos, empilhados. Porque a vida idem.

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{Revolutionary Road de Sam Mendes. Estreia prevista em Portugal para Janeiro 2009.}

quinta-feira, setembro 25

das leituras com vista para o mosteiro

"Porque o amor, por definição, é um dom não merecido; ser-se amado sem mérito é justamente a prova de um amor verdadeiro. Se uma mulher me diz: amo-te porque és inteligente, porque és honesto, porque me dás presentes, porque não andas no engate, porque lavas a louça, sinto-me decepcionado; este amor tem o ar de ser qualquer coisa de interessado. É muito mais bonito ouvir: estou louca por ti apesar de tu não seres nem inteligente nem sério, e embora sejas mentiroso, egoísta e safado."

A Lentidão, Milan Kundera

quarta-feira, setembro 24

iMac

A incompetência da máquina deu origem a uma raiva indescritível. Passei as tardes a ler no intervalo dos seus pensamentos, profundos e demorados como se fosse ela a criar o trabalho, como se ponderasse nalguma teoria ou filosofia, como se fosse pensante e autónoma por si só. Esqueço tudo o que faz por mim todos os dias. Recuso-me a aceitar a sua imperfeição. Tudo falha, nem as máquinas são verdadeiramente automáticas. A incompetência da máquina é pior do que a incompetência da pessoa. Às pessoas acontecem coisas, às máquinas não. A incompetência da máquina estraga-me o dia, rouba-me horas e isso deu origem a uma raiva indescritível. Porque pagar pela incompetência das pessoas é aceitável, mas admitir a das máquinas não.

quinta-feira, setembro 18

Hoje

gostava que vocês soubessem a quantidade de palavrões que digo num dia como hoje. E se não os escrevo não é por pudor, é por serem feios e ninguém gosta de olhar para coisas feias.

Hoje

dou continuidade à revolta e ao mau-estar que me têm trazido fora de mim, pendurada pela sombra.

"Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar por completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo - a luz do candeeiro e a luz da Primavera - dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir."

Contos Exemplares, Sophia de Mello Breyner Andresen


quarta-feira, setembro 17

Depois de dois dias passados fora de mim, acordo e espanto a dormência. O plano é simples (tem de ser) manter a cabeça no lugar, fazer o que é esperado sem desesperar. Hoje tirei uma fotografia de sorriso nos lábios. Amanhã começa tudo outra vez.


{The Ting Tings _ Keep Your Head}

10 minutes to go
And the air it don't feel clear
Everybody disappear
You're in it on your own

sexta-feira, setembro 12

Uma coisa estúpida

"Quem teve uma vez um amor, e o perdeu, habitua-se a negar que tenha sido de facto amor. Diz-se, não foi amor, foi sexo, foi amizade, foi um impulso apaixonado, uma coisa estúpida que não deveria ter acontecido, porque não foi amor. Se tivesse sido, teria durado. Se tivesse sido, não teria acabado sem moral, sem história, dominadas as vontades pelo orgulho, pelo silêncio, pelo "se pensas que não me safo, estás bem enganado(a)". Porém, resguardados os casos em que o afecto e a raiva nunca se confundiram para ser breve vencidos pela intimidade e pelo desejo, é muito provável que tenha havido amor. Um amor que acabou mas não morreu, que viaja através do tempo recusando fixar-se num passado qualquer onde possa definhar em silêncio. Um apêndice imaterial vogando sobre as nossas cabeças, sorrindo e exclamando, olha, estou aqui. Sei que não me queres, mas deste-me vida há 10, 20, 30 anos, criaste-me, e agora acompanho-te, sigo os teus passos, acordo contigo, adormeço contigo, e dou-me ao luxo de interferir nos teus sonhos e pesadelos. Quem teve um dia um amor e o perdeu sabe que isto se sente desta forma.
Por isso, o amor do passado não foi uma ilusão, embora preferíssemos. Os seus sujeitos pensam nele como um incómodo, um vício maléfico do pensamento de que são os únicos culpados. Porque para eles esse amor nunca existiu, nunca existiu."

Retirado d'O Mundo Perfeito, de Isabela

terça-feira, setembro 9

Todas as manhãs

seja dia útil, feriado, dia santo... em nossa casa acorda-se assim. Fica a faltar o maravilhoso odor fétido a mix de atum com outros peixes marados (Purina, whiscas, não podem fazer nada em relação a isto?) sempre presente no hálito felino. Uma frescura que nos desperta assim que miam a escassos centímetros da nossa cara. Imperdível.

(Enquanto espero que o iStockphoto volte a si, "passeio" pelos blogues vizinhos. Esta série foi descoberta no bb-blog.)

Erro 503

Dou o braço a torcer... não há forma mais engraçada de comunicar que um site está em baixo. É assim que se alegra uma tarde que acabou de se estragar! :)

segunda-feira, setembro 8

Monday Blues


{I Put a Spell On You _ Nina Simone _ 1968}

Acabo o Domingo a dobrar meias, a preparar-me para o fim da época das sandálias. Estão quase todas muito velhas - as meias. Grande parte delas têm riscas ou bonecos ou uma combinação de ambos. Estão desbotadas, com os elásticos partidos, relaxados - não deito nenhum par fora. (Não tenho coragem.) Calço um par, vermelho com riscas rosa e um gato roxo com uma coroa de rei. Estão muito velhas - as meias - incapazes de enfrentar um dia inteiro, preparadas para abrir caminho aos sonhos. Invento um conto-de-fadas, imagino que a minha mãe - foi ela quem me comprou todas estas meias - me veio visitar e que me ajudou a calçá-las antes de adormecer: as meias que me deu no (seu) último Natal.

O Inverno passado comprei algumas, mas por uma estranha coincidência são todas pretas. Trago os pés quentes. E mais nada.

sexta-feira, setembro 5

Entardeceu a chover e eu de sandálias

Não gosto de esplanadas no Verão. São as mesas vazias com folhas amarelas e castanhas aos pés que me convidam a almoçar com vista para o mosteiro. Com sol há muita gente e não me oiço a pensar, não oiço as palavras da música e dos livros a ecoar na cabeça. A sopa e depois o café (sempre com um pau de canela) confortam-me ao cairem quentes no estômago. Não obstante, no Verão sento-me na esplanada porque tenho companhia e conversa; mas hoje descobri que gosto mais de almoçar na rua sozinha. Gosto do meu papel de fingidora - nestas situações gosto de pensar que sou melhor que os outros - sofro de narcisismo Outonal e de nostalgia crónica. O vento levou o cartaz dos gelados, é a sua maneira de anunciar o fim da silly season. Entardeceu a chover e eu de sandálias.

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"Eu hei-de morrer de nada, só por acabar de viver."

Bartolomeu Sozinho
em
Venenos de Deus, Remédios do Diabo de Mia Couto

quarta-feira, setembro 3

terça-feira, setembro 2

Nos sixties

...eu seria assim. Descubram a turma Velvet ou experimentem com a vossa foto aqui.


segunda-feira, setembro 1

Dos {des} conhecidos

Quando vejo a Estrela e a Gardunha ao fundo a azul, pergunto-me se elas me salvariam da tristeza de viver ali uma vida inteira por amor a ele.