sexta-feira, setembro 12

Uma coisa estúpida

"Quem teve uma vez um amor, e o perdeu, habitua-se a negar que tenha sido de facto amor. Diz-se, não foi amor, foi sexo, foi amizade, foi um impulso apaixonado, uma coisa estúpida que não deveria ter acontecido, porque não foi amor. Se tivesse sido, teria durado. Se tivesse sido, não teria acabado sem moral, sem história, dominadas as vontades pelo orgulho, pelo silêncio, pelo "se pensas que não me safo, estás bem enganado(a)". Porém, resguardados os casos em que o afecto e a raiva nunca se confundiram para ser breve vencidos pela intimidade e pelo desejo, é muito provável que tenha havido amor. Um amor que acabou mas não morreu, que viaja através do tempo recusando fixar-se num passado qualquer onde possa definhar em silêncio. Um apêndice imaterial vogando sobre as nossas cabeças, sorrindo e exclamando, olha, estou aqui. Sei que não me queres, mas deste-me vida há 10, 20, 30 anos, criaste-me, e agora acompanho-te, sigo os teus passos, acordo contigo, adormeço contigo, e dou-me ao luxo de interferir nos teus sonhos e pesadelos. Quem teve um dia um amor e o perdeu sabe que isto se sente desta forma.
Por isso, o amor do passado não foi uma ilusão, embora preferíssemos. Os seus sujeitos pensam nele como um incómodo, um vício maléfico do pensamento de que são os únicos culpados. Porque para eles esse amor nunca existiu, nunca existiu."

Retirado d'O Mundo Perfeito, de Isabela

1 comentário:

Salamandra Pintarolas disse...

"Quem teve um dia um amor e o perdeu sabe que isto se sente desta forma."
De facto.