terça-feira, novembro 25

Não durmo. Tenho pesadelos sem monstros. Sonho que sou pequena e estou sozinha em casa. Nunca gostei. Está tudo muito limpo e arrumado nos sítios certos. Os móveis de mogno muito brilhantes e a cheirar a óleo de cedro, as bonecas de porcelana sentadas em fila, os elefantes de loiça com a tromba virada para a porta, os edredões com bonecos de um lado e um padrão azul do outro estão milimetricamente esticados e alinhados lado a lado, um na minha cama o outro na cama da Esperança. Brinco com as chávenas de colecção e ninguém ralha. Não está ninguém em casa. A casa vazia é o pesadelo que não me deixa dormir. Escondo-me debaixo do edredão com bonecos de um lado e um padrão azul do outro - agora velho, estampado a cores pastel - chego-me a ele, para sentir a casa com gente.

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Hoje acordei de uma conversa com a minha mãe. Depois de uma zanga com o meu pai, ela dizia-me que havia uma altura em que eu gostava tanto dele que só dormia ao colo dele, depois de ele chegar do turno da noite na fábrica.

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Dou por mim a querer estar vazia de memórias, sem o passado recorrente a prender-me. (É tão desolador não ter pai nem mãe.) Eu queria como estava, era isso.

8 comentários:

Salamandra Pintarolas disse...

Quando éramos pequenos, ninguém nos perguntava como queríamos que fossem as coisas. Agora, os pais iludem as crianças, perguntando-lhes o que querem... são elas que decidem onde passeiam os pais ao fim-de-semana, o que se vai fazer nas próximas férias, que marcas se compram no supermercado.
Hoje, já adulta, gosto de pensar que posso fazer muitas escolhas. Contudo, e para nunca entrar em angústias, tento não esquecer que há coisas que não podemos escolher e não há quem nos venha perguntar o que queremos nós.

(ocorreu-me dizer, a propósito do teu post)

Sara disse...

Querer nunca foi poder.

Anónimo disse...

Apesar de eu ser "um bocadinho " mais velha e ter tido os meus pais até há pouco tempo, convenci-me que eles eram eternos e qdo vi que não é assim, fiquei muito zangada, triste, sózinha, arrependida de não ter sido uma filha mais carinhosa,de não lhes ter dado mais mimos, (embora tivesse sido uma filha presente). Agora sinto-me orfã e qdo estou um pouco mais "em baixo" lembro-me logo deles, da falta que me fazem (eram a minha "retaguarda", o meu apoio). Mas...estou resignada e neste momento, com um nó na garganta e lágrimas nos olhos.

Bj
Mimi

design assim disse...

A falta de chão é imensa. E as nuvens pousam bem perto do meu ombro. Frias e cinzentas.
Sempre sem coragem para aqui deixar um comentário, agora oiço-o sussurrar bem pertinho:
"Agarra-te à saudade."
Acho que é a única coisa que tenho.

(sou fatherless há quase 3 anos e isso mudou-me para sempre)

Fica um beijo,

Neusa

Sara disse...

Obrigada.

Teresa Santos disse...

Apesar de tudo o que escreves e guardas na memoria,,esse sentimento vai-te acompanhar ao longo da vida,,comigo foi assim e continua a ser..mas sabes que podes sempre contar comigo enquanto eu existir.. ADORO-TE

Sara disse...

Beijinho tia. :)

Sílvia Silva disse...

é um buraco fundo que nunca mais desaparece, fica lá para sempre, mói mas não mata. é o sofrimento de que tanto falam os livros e os filmes, mas que para nós é real. compreendo-te bem, perdi ambos os meus pais de doença antes de ter chegado aos 30. às vezes ainda não acredito que isto me aconteceu, mas aconteceu. mas todos os dias acordo com a certeza do que tenho de fazer: viver. um abraço.