quinta-feira, outubro 8

Anónimo

Como um casaco cinzento que fica bem com tudo, que resolve o casual e o formal, foi ficando velha. Primeiro ganhou borbotos - só se viam ao perto - depois rompeu-se nos cotovelos e tornou-se quase transparente. O limite foram os bolsos: descoseram-se e deixaram fugir as moedas, mesmo no meio da rua. Aí foi rapidamente esquecido. Aconteceu o irremediável. (O mundo não vive de afectos. Gira à volta de coisas que passam opacamente despercebidas, disseram-lhe.)


3 comentários:

Anónimo disse...

Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Calas-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

in O Livro das Imagens, Rainer Maria Rilke, Segundo Livro Primeira Parte.

Anónimo disse...

Liberdade
Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.

armindo rodrigues
(Lisboa, 1904-1993)

Anónimo disse...

"quando nada é certo, tudo é possível"

Margaret Drabble

Bem haja,Sara