sexta-feira, outubro 16

Até amanhã

Foi a última coisa que lhe disse.

Foi assim que passei a carregar arrependimentos para o resto da vida. O peso extra que só uma pessoa podia aliviar. O irremediável peso do que ficou por dizer.

4 comentários:

Anónimo disse...

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

carlos drummond de andrade
(Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, Brasil, 1902-1987)

Anónimo disse...

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

sophia de mello breyner andresen
(Porto, 1919-2004)

Anónimo disse...

«Aquele que quer recordar-se não pode ficar no mesmo sítio e esperar que as recordações se aproximem sozinhas! As recordações dispersaram-se pelo vasto mundo e é preciso viajar para as encontrar e retirar do abrigo!»
«Os Anjos», in O Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera

Anónimo disse...

A Porta

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta.
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho.
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado.
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira.
Eu abro de sopetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa)
Que se uma pessoa é burra,
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa,
Fecho a frente do quartel,
Fecho tudo nesse mundo,
Só vivo aberta no céu!


Vinícius de Moraes, Poemas Infantis