quinta-feira, outubro 15

Dos restos


É quase à uma da manhã que tenho o resto do meu dia. Estas são as horas e os minutos que me restam depois de tudo o resto. Do trabalho, das horas-extra, do ginásio, do jantar, da roupa (apanhada e estendida), da conversa posta em dia e do cocó da gata. Ou durmo ou faço o resto.

{The little cracks they escalated / And before we knew it was too late / For making circles and telling lies / You're moving too fast for me / And I can't keep up with you / Maybe if you slowed down for me / I could see you're only telling / Lies
- canta Glen Hansard ao meu ouvido.}

Não consigo compartimentalizar mais a minha vida. Há coisas a ficar inevitavelmente para trás. Telefonemas, afectos, pessoas, recados, prazos e o lixo para reciclar. No meu pequeno submarino vou fechando portas e escotilhas, mas a água entra sempre: obriga-me a escolher e a avançar a todo o custo, sem olhar a estragos. Avanço crente que ainda há tempo. Escolho não escolher.


4 comentários:

stories behind disse...

"ou durmo ou faço o resto"...
vivi anos com essa frase, nessa altura fazia o resto e perdi muito, mais do que aquilo que gostaria... agora? agora durmo. o resto vai-se fazendo...

Anónimo disse...

(BASTA PENSAR EM SENTIR)

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar e andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vá chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.
fernando pessoa
(Lisboa, 1888-1935)

Anónimo disse...

O sono

Quando os relógios da meia-noite oferecerem
Um tempo generoso,
Irei mais longe que os remadores de Ulisses,
À inacessível região do sono,
À memória humana.
Dessa região imersa resgato restos
Que nunca chego a compreender:
Ervas de botânica simples,
Animais um pouco diferentes,
Diálogos com os mortos,
Rostos que são na verdade máscaras,
Palavras de línguas muito antigas
E às vezes um horror incomparável
Ao que nos pode dar o dia.
Serei ninguém ou todos. Serei o outro
Que sem saber eu sou, o que observou
Esse outro sono, a minha vigília. Julga-a,
Resignado e sorridente.
in: A Rosa Profunda (1975)
J.L.B.

Anónimo disse...

"Quiero dormir un rato,
"un rato, un minuto, un siglo;
"pero que todos sepan que no he muerto;
"que haya un establo de oro en mis labios;
"que soy un pequeño amigo del viento Oeste;
"que soy la sombra inmensa de mis lágrimas."

Federico García Lorca (1898 - 1936)
GACELA DE LA MUERTE OSCURA