terça-feira, novembro 24

Da falta de sorrisos

Podia culpar a chegada do Inverno, a sonolência matinal, o amigo que está de partida ou o descontentamento que ultimamente tem arrendado grande parte da minha cabeça e metade do meu coração; mas a verdade é que não estou de sorriso rasgado na foto quotidiana porque não seria sincera. Não consigo rir a fingir. Só consigo desenhar o pequeno esgar simpático de alguém que vê uma pessoa conhecida do outro lado da rua, que frequentemente é capturado pela foto. Assim, sabem vocês e sei eu que se me ri naquele momento é porque estava sinceramente feliz. E um sorriso sincero vale tanto como uma lágrima verdadeira.


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Obrigada a todos pelos comentários e pelos elogios.

6 comentários:

Lívia disse...

Bicicleta de recados

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Pedalo nas palavras atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu recado ouvir minha canção.
Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi à Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas.
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.
Desde o Minho ao Algarve
eu vou pelos caminhos.
E vêm homens perguntar se houve milagre
perguntam pela chuva que já tarda
perguntam pelos filhos que foram à guerra
perguntam pelo sol perguntam pela vida
e vêm homens espantados às janelas
ouvir o meu recado ouvir minha canção.
Porque eu trago notícias de todos os filhos
eu trago a chuva e o sol e a promessa dos trigos
e um cesto carregado de vindima
eu trago a vida
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.
Manuel Alegre

:) Lívia

Anónimo disse...

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…
Álvaro de Campos

Bem haja, Sara
:) Lx

s... disse...

DESENCANTO DOS DIAS

Não era afinal isto que esperávamos
Não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente

Ruy Belo
s...

Anónimo disse...

ESTADO DE ALMA

Um dia enevoado e outonal.
As folhas ainda verdes, mas adormecidas...
Um friozinho como de seda crua
na pele de mulher - adolescente.
Acolho-me à sombra das árvores de um jardim
e absorvo-lhes o calor íntimo...
nos meus versos a presença do Divino
perpassando como aves de arribação
em viagens para países longínquos...

23/9/76
Ruy Cinatti
:))

Anónimo disse...

"Se hoje à noite chover
talvez me vá estender ao sol da tua face
como se acreditasse
que o Outono voltou.

E no banco de ver
dourados e vermelhos
vou cruzar os joelhos
ao lado de quem sou.

Vou à esquina de ti comprar castanhas
guardá-las nas entranhas
dos bolsos de inventar
vou ao sotão de nós buscar a lenha
de acender a fogueira de falar.

Diremos orações ao tom do vento
esconjurando fantasmas que há em nós
faremos o amor visto por dentro
junto à lareira de não estarmos sós.

Ouviremos na cama o som da chuva
(sempre chove na sede de quem quer).
De folha em folha seca
de uva em uva
juntaremos os corpos à saúde
desse Outono dourado que vier.

Porém se tudo não surtir efeito
e disseres que Novembro não voltou
vou pousar a cabeça no teu peito.

Saberás que o Outono já chegou. "

Rosa Lobato Faria in "O livro do bem-estar"
:)

Anónimo disse...

So if you want to love me
then darlin' don't refrain
Or I'll just end up walkin'
In the cold November rain

:))