quarta-feira, novembro 11

A outra face

Errei muitas vezes por pensamentos, palavras, actos e omissões; mas também já dei a outra face vezes a mais. Depois de quantas omissões conscientes é que se passa a dar o nome correcto à acção? Não fui feita para isto. Claramente não fui feita para isto das omissões e do bem maior. Principalmente quando o meu bem-estar é um mal menor. Trago um nó na garganta e não há quem mo desfaça. É assim que todos os dias desisto um bocadinho.

10 comentários:

Anónimo disse...

Ao correr das lembranças

Lembrança minha do jardim da casa:
vida benigna das plantas,
vida afável e misteriosa
lisonjeada pelos homens.

A palmeira mais alta daquele céu
como um cortiço de pardais;
vide firmamental da uva negra,
dias do Verão dormiam à tua sombra.

Moinho colorido:
remota roda a laborar no vento,
honra da nossa casa, porque às outras
ia plo rio abaixo o toque do aguadeiro.

Cave circular da base,
tornando aquele jardim vertiginoso,
fazia medo ver por uma frincha
o teu cárcere de água tão subtil.

Jardim, frente à cancela se cumpriram
os agrestes carreiros
e aturdiu-nos o carnaval berrante
de insolentes fanfarras.

O armazém, padrinho do malévolo,
dominava essa esquina;
mas tinhas canaviais para fazer lanças
e pardais para as rezas.

O sonho das tuas árvores e o meu
continuam na noite a confundir-se
e a devastação das gralhas
deixou um antigo medo no meu sangue.

As tuas varas de profundidade
tornaram-se a nossa geografia;
um alto seria «a montanha de terra»
e uma temeridade o seu declive.

Jardim, encurtarei a oração
para continuar sempre a lembrar-me:
a vontade ou o acaso de dar sombra
foram as tuas árvores.

J. L. B.
in Caderno de San Martin
:) Lívia

Anónimo disse...

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

David Mourão Ferreira

:)Lv

Anónimo disse...

Impossível



Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais;
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor d'azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, p'ra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandecida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entre-dormida,
Nas noites de Verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande lotaria que passou,
Da boa, da espanhola.

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo, até à morte,
E sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!



Cesário Verde

Bem haja, Sara

Anónimo disse...

Felicidade


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta





Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

:))

Anónimo disse...

Coisa pouca...
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade

:))

Anónimo disse...

Uma forma de luz....

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

:)Lv

Anónimo disse...

The Piano [Life is a song] Yann Tiersen - comptine d'un autre été l'après midi:

http://www.youtube.com/watch?v=4Z2ljWwIaHs&feature=player_embedded

:))

Anónimo disse...

“Senhor, ajuda-me a dizer a verdade
diante dos fortes e a não dizer mentiras para
ganhar o aplauso dos fracos.
Se me dás fortuna, não me tires a razão.
Se me dás sucesso, não me tires a humildade.
Se me dás humildade, não me tires a dignidade.
Ajuda-me a ver o outro lado da moeda.
Não me deixes acusar o outro
por traição aos demais, apenas por não pensar como eu
Ensina-me a amar os outros como a mim mesmo.
Não deixes que me torne orgulhoso, se triunfo;
nem cair em desespero se fracasso.
Mas recorda-me que o fracasso
é a experiência que precede o triunfo.
Ensina-me que perdoar é um sinal de grandeza
e que a vingança é um sinal de pequenês
Se não me deres o êxito,
dá-me forças para aprender com o fracasso.
Se eu ofender as pessoas,
dá-me coragem para pedir desculpa
E se alguém me ofender
dá-me grandeza para lhe perdoar.

Senhor, se eu me esquecer de Ti,
nunca Te esqueças de mim.”

(Ghandi)

Coragem,Sara!
:))Sv

wednesday disse...

Força :)

Anónimo disse...

" O trabalho irá esperar enquanto você mostra às crianças o arco-íris, mas o arco-íris não espera enquanto você está trabalhando."

Patricia Clifford

Sara, nunca desista.
Dedico-lhe este vídeo.
Lívia
http://www.youtube.com/watch?v=e7je95XY1YY&feature=player_embedded