segunda-feira, dezembro 14

Das coisas

pensadas mas que não são ditas. Que se dizem sem pensar. Que se pensam sem fazer. Ando presa a este pensamento. Ando a (re)ler O Amor é Fodido com o título escondido das senhoras do café. Com medo do que possam pensar de mim. ("Não é medo, é receio.")


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Finjo ser quem era e estou mais descansada. A facilidade com que se deixam enganar e se fingem parvos ou ignorantes não deixa de me impressionar. É estonteante. Mas ninguém chega a mim e ando mais à solta. Sem suspeitas, nem suspeitos.
Preparo-me para ficar sozinha passando os dias que me restam sozinha. Fora da carrinha, de barriga vazia de tortellonnis. Séria. Pensado faz sentido, mas escrito parece a coisa mais parva de todos os tempos. Principalmente dos que estão para vir.

4 comentários:

Juca disse...

"Vivo num estado de espírito em que não pertenço a sítio nenhum, o que não me desagrada, até me dá uma certa liberdade."

marjane satrapi

:)Juca

Lívia disse...

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

sophia de mello breyner andresen
|Porto, 1919-2004|

:) Lívia

Lv disse...

O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:
Era belo, áspero, intratável.

Petrópolis, 1925
Manuel Bandeira

sara, medite um pouco nas palavras do poeta

Um bem-haja
:)Lv

Anónimo disse...

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

:)s