quinta-feira, junho 10

Fisterra

{Fisterra_Finisterra}

A chegada a Finisterra não foi como tinha sonhado. Fiquei doente na véspera da partida o que nos impediu (por recomendação do médico) de fazer o caminho a pé desde Santiago de Compostela, como planeado. Dois dias de preparativos pelo cano abaixo! A melancolia de não ser uma verdadeira peregrina acompanhou-me toda a viagem e acabou por ser confirmada por dois dias de chuva e vento fortes que nos fizeram regressar a Portugal mais cedo do que o previsto. O Yaris foi as nossas pernas nesta aventura - quase rally - na Galiza. Proibi-me de comprar conchas ou recuerdos ligados ao peregrino e tentei esquecer a importância de fazer o caminho num ano Xacobeo, que está para os católicos como as amnistias estão para os criminosos.
A quantidade de gente de todas as idades e nacionalidades que se junta na cidade é impressionante e faz lamentar o modo como as coisas acontecem por cá, nomeadamente em Fátima. O Ano Santo em Santiago não é só feito de missas e procissões, há exposições, concertos, feiras e festas para todos. Na capela da Universidade tivemos a oportunidade de visitar uma exposição de arte contemporânea chinesa que era tudo menos sacra. Cuecas gigantes penduradas nas paredes com neóns passavam mensagens anti-globalização. Estava também a acontecer uma enorme Feira Medieval que primava sobretudo pela comida. Há noite, com os peregrinos já longe da Catedral, havia um casal na rua a tocar e cantar música Pop que muito nos agradou e fez com que nos sentássemos na escadaria, quase como se fossemos galegos.

 {escadaria lateral da Catedral _ som de fundo: Radiohead com sotaque galego}

 {os campistas}

Depois de uma noite passada na tenda (a primeira foi num hotel, chegámos tarde e não encontrámos o parque), subimos rumo a Finisterra sempre junto à costa. A estadia no camping aguçou-me ainda mais o apetite de compra de uma Volkswagen Califórnia, muito popular entre nuestros hermanos (e frequentemente criticada pelo João Abel). O tempo foi piorando ao ritmo da subida e quando parámos para almoçar na Serra de Outes já chovia.

 {Piquenique com vista sobre a baía de Neria}

A caminho de Finisterra ecoava na minha cabeça a ideia de andar até não haver mais chão. Afinal há parque de estacionamento e tudo (e cheira a xi-xi). Chegavam muitos peregrinos - a pé, de bicicleta e de mota - com um ar cansado e aliviado de missão cumprida. Em todos os cantos se viam botas, camisolas e mochilas - umas queimadas, outras não - simbolicamente ali deixadas a marcar o fim da jornada. Fitámos todo aquele mar e preparámo-nos para descer. A chuva já não deixava ver o caminho. Parámos em Porto do Son onde jantámos polvo e uma bela tortilha. Através do nosso estalajadeiro, soubemos que havia por ali muitas maravilhas naturais e monumentais a visitar, guardámo-las para a manhã seguinte na esperança de bom tempo. O homem ainda nos tentou animar dizendo quen non coñece a galicia con choiva non a coñece verdadeiramente. De manhã a chuva não abrandou e decidimos rumar a casa. Pagámos e partimos com votos de bo regreso.

{arte nas ruas de Pontevedra}

A pausa para almoçar foi em Pontevedra, que entre torres dez andares esconde um centro histórico fantástico. No lounge Quiosco uns tomavam o desayuno e outros petiscavam tapas. Sentimos sempre que comíamos fora do ritmo e nunca soubemos bem o que pedir. A hora já era de siesta e na rua viam-se avós a empurrar carrinhos de bebé e grupos de adolescentes a rumar a casa vestidos com a farda axadrezada da escola. As lojas estavam fechadas, mas isso não nos impediu de colar os olhos às montras das sapatarias com o logo Camper. Continuámos a descer, o cansaço tinha-me transformado num co-piloto que não falava nem português nem galego mas uma mistura dos dois: à la izquierda, dizia. Atravessámos Vigo rumo A Guarda onde passámos para Portugal de ferry boat por pouco mais de três euros.


{passageiros no ferry}

A viagem é curta e de uma margem vê-se logo a outra. Portugal e Espanha parecem um só. Em Caminha confirmámos que o céu cinzento estava para ficar. O meu telemóvel - que em Espanha optou por não funcionar, qual Movistar qual quê! - recebeu de uma assentada todas as mensagens e e-mails dos últimos dias e tive entretém para a primeira hora de caminho. Parámos apenas para petiscar e comprar um jornal e ao fim da tarde já estávamos em casa. (O carro mete nojo, serviu de mesa, estendal e cama de sesta, mas portou-se como um campeão!)

3 comentários:

mimi disse...

Umas férias boas. E a saúde, em que é que ficou? Já passou o dói-dói?
Bj
Mimi

Lívia disse...

Mar sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim

Sophia de Mello Breyner Andresen

:)
Lívia

Mary disse...
Este comentário foi removido pelo autor.